“Confesso que no fim do dia estou ultracansada”

Maternagem e trabalho remoto: a sobrecarga das servidoras mães durante a pandemia

Professora Gisele e seu filho Raul, de 4 anos

A rotina das mulheres mães trabalhadoras foi duramente impactada pela pandemia. Se antes a dupla ou tripla jornada de trabalho – a saber, atividades do lar, cuidado com os filhos e o trabalho remunerado – sobrecarregava as mulheres, agora possui agravantes: a falta de uma rede de apoio e o esgotamento físico de realizar todas essas jornadas em único espaço, o lar.

Muitas servidoras do Ifal estão há exatamente 134 dias vivendo esse “novo normal” e tendo que se virar com a estafante rotina de usar máscaras, redobrar cuidados com a higiene, se afastar de familiares e amigos e reinventar uma rotina para seus/suas filhos/as. Além disso, e não menos importante, continuar seu trabalho no Ifal de forma virtual.

“Desde o começo tem sido difícil conciliar as atividades remotas com as atividades de casa. Com a pandemia, meu filho não pôde mais ir para a escola e nem pude ter ajuda de alguém. Eu estou tendo que ficar o dia todo com ele e trabalhar. Sempre é comigo, o tempo todo. Tá sendo muito difícil, confesso que no fim do dia estou ultracansada. Administrar isso não é nada fácil e isso não é só uma realidade minha”, afirmou a professora Gisele Oliveira, do câmpus Penedo, mãe de Raul, 4 anos.

Professora Ana Lady e sua filha Melissa, de 8 anos

“Os dias durante o isolamento têm tido constantes desafios: o dormir e acordar não são como a rotina de antes, o tempo de cuidado e educação da minha filha que era dividido com a escola, agora é somente meu. Muitas das vezes, as aulas da minha filha são no mesmo horário de reuniões ou cursos que comecei a fazer. Acabei abandonando os cursos da tarde. Se eu quero fazer algo por mim, seja atividade física, meditação, cursos on-line, descansar, conversar com alguém, tem que ser à noite, ou mais cedo, antes dela acordar ou nos finais de semana”, afirmou a docente Ana Lady, do câmpus Marechal Deodoro, mãe de Melissa, 8 anos.

Ana Lady, por ser mãe solo, e Gisele, pelo marido trabalhar em outra cidade, ficam integralmente com Melissa e Raul durante a semana, conciliando as obrigações da casa, com a criação do/a filho/a e o trabalho remoto, que, apesar de o calendário letivo estar suspenso, não parou.

“Tenho duas orientadas de TCC e, desde o início da pandemia, a gente manteve a orientação. É complicado porque meu filho interrompe sempre. Ele tem 4 anos e não tem a quem recorrer. É sempre muito difícil de administrar. Sem falar que ele também merece atenção, tá confinado em casa desde março”, acrescentou Gisele.

TAE Deise Mendes e sua filha Sophia, de 7 anos

A assistente em administração Deise Mendes também relata o quanto está sendo difícil lidar com essa nova realidade. “Minha filha está em casa desde março também e a gente tem que se desdobrar. Tanto para trabalhar, cuidar da casa e cuidar de Sophia, de 7 anos. Ao menos, tenho um companheiro que divide as tarefas de casa comigo. Porém eu tenho sentindo a ausência do ambiente escolar, pelo convívio com outras crianças. Além disso, ela fica muito exposta à internet porque eu trabalho oito horas”, disse a TAE do câmpus Marechal Deodoro, acrescentando que mesmo sentido falta da escola é “contra voltar até que tudo isso seja controlado”.

Trabalho dobrado e frustação pelo insucesso

Além do “novo normal” dentro de casa, no Ifal, os desafios também passaram a ser maiores devido ao trabalho remoto. “Sou assistente em administração, lotada no Departamento de Apoio Acadêmico, onde estou substituindo a minha chefe. A gente lida com a assistência estudantil e tem que dar atendimento aos estudantes quanto ao auxílio, serviço social, psicológico e nutricional. A gente teve que se reinventar para dar suporte virtualmente. Criamos um instagram para aumentar a relação com os alunos, além de gerenciar a equipe e as atividades. Não tem mais hora de trabalho certo”, relatou Deise Mendes, técnica-administrativa, lembrando de uma aluna que apenas no fim de semana conseguia ter acesso à internet, na casa de uma irmã.

Deise acrescentou que, devido à falta de internet e equipamento por parte dos estudantes, o trabalho do DAA é ainda maior. Antes, era possível publicar um edital no mural da instituição e encontrar os/as alunos/as em sala. Agora, é preciso criar estratégias para encontrar os alunos.

“Em maio, fizemos um novo edital de auxílio permanência e das 200 vagas só conseguimos preencher 80%, com novos estudantes ingressantes e veteranos que não recebiam o auxílio. Mantivemos os que já recebiam e aumentamos a quantidade de auxílios novos. Agora, diante de muitos pedidos, abrimos um novo edital. Muitos alegaram não ter internet à época e não ficaram sabendo”, afirmou a coordenadora do DAA de Marechal Deodoro.

A TAE também fez questão de explicar a dificuldade de o Ifal chegar até os/as estudantes. “O DAA, Direção de Ensino e a Direção Geral elaboraram um questionário para fazer uma busca ativa aos estudantes ativos. Com a ajuda dos terceirzados, entramos em contato por telefone com os estudantes. Do universo de 1200, tivemos acesso à apenas 1/4, muitas vezes através de parentes por não conseguir falar diretamente com os alunos. Agora, nossa nova tentativa será por meio de questionário on-line, pois muitos contatos estão desatualizados”, acrescentou Deise.

O primeiro questionário, em que Deise preferiu chamar de piloto, foi constatado que a maioria dos estudantes usam usam o celular para ter acesso à internet. A qualidade nem sempre é boa. E alguns nem celular ou nem internet possuem. Além disso, “no questionário piloto, muitos reclamaram de barulho e que não conseguem se concentrar, pois tem muita gente em casa. O novo questionário vai tentar identificar essas vulnerabilidades, do acesso à internet até mesmo o espaço físico apropriado dentro da residência do estudante”, concluiu.

Também para as docentes, o desafio é grande e muitas vezes frustrante. Em Penedo, os/as professores/as iniciaram o período da quarentena passando atividades diretamente para os/as alunos/as. Depois, por reclamação dos/as estudantes, o processo foi aprimorado e cada turma passou a ter dois ou três tutores para intermediar e acompanhar as atividades dos/as professores/as de acordo com o ritmo das turmas.

“Em março e abril, houve uma participação grande dos alunos, depois desse período foi caindo a participação. Um processo de desmotivação. Eu e muitos professores tentamos adotar atividades que não fossem da ementa, mais lúdicas. Uma dessas atividades, que teve pouquíssima participação, foi que eles gravassem dicas de filmes que se encaixassem em temas diversos. Achei que ia ter uma participação grande, mas de cerca de 90 apenas 17 participaram”, relatou a professora Gisele.

Também em Marechal Deodoro foram mantidas atividades remotas com alunos/as sem validade de nota ou presença. Mas, para Ana Lady, as experiências não são animadoras. “Mais da metade dos alunos usam dados móveis para acesso aos encontros via meet e acesso às atividades. Ou seja, além de não terem um computador para armazenamento das apostilas, pesquisa e digitação de trabalhos propostos pelos outros professores, não há possibilidade de acesso, a todos, à internet via banda larga, com qualidade. O celular utilizado, muitas vezes é o mesmo que os pais usam e levam para o trabalho durante o dia, logo alguns alunos só têm acesso à noite e não há memória para armazenamento de tantas apostilas, livros e atividades. É bastante desanimador”, afirmou a professora Ana Lady.

Em números, o grupo de whatsapp de contato com os alunos do primeiro ano possui 115 estudantes e 7 professores, sendo que o número por vezes é da mãe ou de parente. Em sua sala de aula virtual, 54 já acessaram e dos encontros remotos via google meet o máximo de presença foi 28. Dessa forma, a professora Ana Lady se colocou abertamente contra o ensino remoto.

“Sou contra o ensino remoto nessas atuais condições. Não adianta dar chip com acesso à internet se não há ferramenta adequada, como computador e banda larga. Nós também não temos uma sala especial para gravar aulas, equipamentos, aplicativos ou programas para edição de vídeos. Às vezes, nem sabemos como funciona. Não fomos preparados para enfrentar essa atual situação. E agora, o que não falta, são cursos querendo nos vender a ideia que as aulas remotas são o novo caminho da Educação. Esqueceram-se somente de contar com o quesito situação socioeconômica dos alunos. Acredito que se o ensino não for de qualidade e não for para todos não é educação, é privilégio”, disse a professora.

Para a vice-presidenta do Sintietfal, Elaine Lima, o trabalho remoto no Ifal é mais cansativo do que o presencial para as mulheres. “A dificuldade de ser mulher nessa sociedade são as mais variadas. No contexto do trabalho remoto, isso se torna mais cansativo e estafante já que temos que dar conta de tudo ao mesmo tempo. Eu não tenho filhos e já sinto o peso. Nos dias de trabalho é difícil participar de reunião, ajeitar a casa, fazer as refeições e comer. Já aconteceu de tomar café da manhã, pular o almoço, por falta de tempo, e jantar às 10 horas da noite. Tenho certeza que com as mulheres que possuem filhos, esse problema, é no mínimo, triplicado. Eu posso pular refeição, enquanto mulher solteira, mas não é possível para quem tem filhos/as. Os/as filhos/as têm que comer e ter atenção das mais diversas, inclusive quanto aos estudos”, disse a professora do câmpus Maceió.

Valorização do Cuidar e o ensino remoto

Antes mesmo da pandemia, a quantidade de horas dedicadas pelas mulheres ao cuidado do lar era, em média, o dobro de horas semanais em relação aos homens. Mesmo com a quarentena obrigando os homens a encarar mais o trabalho doméstico, permanece sobre as mulheres o acúmulo das tarefas, inclusive as mentais, como controle e administração do que deve ser feito em casa.

Esse acúmulo de tarefas tem levado as mulheres a cair sua produção científica. Segundo o levantamento do projeto brasileiro Parent in Science [do inglês, pais na ciência] no mês de maio, mais da metade das mães deixou de produzir artigos. Mesmo as mulheres sem filhos, o impacto também foi maior do que sobre homens na mesma situação, representando 40% das mulheres que não concluíram seus artigos, contra 20% dos homens.

Essa situação de não saber o que fazer para ocupar o tempo dos/as filhos/as para as mães poderem trabalhar gera ainda outras preocupações e sobrecarga psicológica. A servidora Deise, assim como a maioria das mães, revelou deixar sua filha jogar na internet e utilizar o celular enquanto trabalha. “Quando penso no tempo que ela fica exposta à internet, é nessas horas que eu fico pensando se sou uma boa mãe”, se questionou Deise.

Durante a entrevista com a professora Gisele, interrompida por vezes pelo pequeno Raul chamando “mamãe, mamãe” e por problemas de rede de celular e de internet, problemas comuns de quem mora no interior, a professora do câmpus Penedo defendeu a “valorização do cuidar” e que no debate sobre o ensino remoto a situação da maternagem não seja invisibilizada.

“A gente já tá com dificuldade agora e imagine quando começarem as aulas remotas com a cobrança de relatórios, horário de aulas etc.  Não dá para a gente ter o mesmo nível de cobrança de colegas que não têm filhos. Imagine eu dando aula e vem lá meu filho e interrompe. Muitas vezes querem atenção e a gente tem que dar. Na idade dele, ele não compreende que não podem agora e se a gente não der atenção eles não vão nos deixar trabalhar”, explicou Gisele.

A partir do diálogo com as demais professoras do câmpus Penedo, Gisele e outras cinco servidoras mães redigiram uma carta apresentando propostas para conciliar o ensino remoto com o cuidado com os/as filhos. Entre as propostas, apresentam a possibilidade de negociação com outros docentes sobre remanejamento de turmas, liberdade de metodologia e liberdade de realizar atividades e orientações on-line no lugar de aulas sincrônicas.

A carta apresenta também a necessidade de pensar os problemas das servidoras mães como problema geral da instituição. “Enquanto Instituição de educação, precisamos romper com a naturalização das desigualdades e que as tarefas de cuidado não são de cunho privado, mas de interesse geral, de toda a sociedade e precisa ser visibilizada e amplamente debatida. Essa é uma luta de todas e todos que acreditam numa sociedade mais justa e igual”, afirma trecho da carta.

O documento intitulado Pela Valorização do Cuidar, elaborado pelas professoras de Penedo, será debatido na Assembleia Geral do Sintietfal desta quarta-feira, às 15 horas, pela plataforma google meet.

Assembleia Geral virtual debaterá retorno às atividades presenciais e ensino remoto no Ifal

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