Nenhum estudante para trás: Assembleia Geral virtual firma posição contra o ensino remoto

Categoria também se posicionou favorável à luta contra a sobrecarga das servidoras mães

Com mais de 100 participantes e após um rico debate, a Assembleia Geral do Sintietfal definiu posicionamento contrário ao ensino remoto no Ifal. No entendimento da maioria, a educação pública é um direito de todos os/as estudantes e nenhum pode ser prejudicado por falta de condições para assistir aulas de forma virtual.

Os/as servidores/as presentes cobraram também mais diálogo por parte da reitoria para que possibilidades de retorno, diante da pandemia de Covid-19, sejam discutidas, a partir de audiências públicas e de um amplo debate com todos os segmentos que compõem o Instituto.

A Assembleia Geral Extraordinária foi realizada na última quarta-feira, 29 de julho, a partir das 15 horas, de forma virtual pelo google meet. A AGE registrou da presença de servidores/as de 15 câmpus e teve como pautas: o ensino presencial/remoto no Ifal e trabalho remoto para as mães trabalhadoras.

Quanto a situação das servidoras mães em trabalho remoto, foi lida e aprovada uma carta aberta das professoras do câmpus Penedo que aponta a necessidade da luta contra a sobrecarga de trabalho das mulheres.

+++Maternagem e trabalho remoto: a sobrecarga das servidoras mães durante a pandemia

“A assembleia foi mais uma vez muito exitosa. Alcançamos o pico de 100 participantes, sendo um número ainda maior se considerarmos todas as pessoas que permaneceram por algum tempo na reunião. Mas esse êxito não é medido apenas pelos números positivos, e sim, principalmente, pela riqueza dos debates realizados, com dezenas de intervenções que refletiram de forma qualificada e democrática as inquietações da categoria acerca dos temas em pauta, culminando com a aprovação de propostas concretas para orientar a atuação do Sintietfal no próximo período”, afirmou o secretário-geral do Sintietfal, Yuri Buarque.

Aulas no Ifal

O debate sobre a retomada do calendário letivo no Ifal, motivo de convocação da assembleia, foi debatido a partir dos informes dos dirigentes sindicais sobre os grupos de trabalho e reuniões institucionais que têm tratado dessa temática.

Sobre as aulas presenciais, mesmo com o governo federal pressionando pela sua retomada, o Estado de Alagoas tem um protocolo sanitário que as impedem nesse momento. Somente na fase verde, sem data definida, existirá tal possiblidade. Além disso, as discussões nos Grupos de Trabalho criados pela reitoria têm sido cautelosas, apontando para a volta à sala de aula apenas com total segurança para a comunidade acadêmica.

Diante disso, a possiblidade de retomar à “normalidade” através do ensino remoto tem sido apresentada como “solução”. Os/as servidores/as presentes na assembleia debateram as problemáticas que envolvem esse tema para além da inclusão digital.

“Enquanto os debates giram em torno da conectividade, nós temos que pensar na situação dos servidores/as e alunos/as. Nós somos humanos e não podemos ignorar essa situação de pandemia”, afirmou Fabiana Menezes, diretora do Sintietfal.

O professor Ederson Matsumoto, o Japa, em seu informe à assembleia, apresentou a complexidade de diversos pontos como a conectividade, acessibilidade, local apropriado nas residências, situação psicológica dos/as estudantes, além do preparo dos docentes para o uso das tecnologias e definição metodológica.

“Há um GT construindo um documento norteando um retorno presencial ou híbrido. O documento, baseado em portarias e recomendações de órgãos locais, nacionais e internacionais de saúde, apresenta uma extensa lista de condições mínimas de segurança, infraestrutura e metodologias a serem consideradas antes desse retorno, que não deve ocorrer num futuro muito próximo. Já o retorno remoto para as turmas finais ocorrerá no final de agosto, segundo informações divulgadas em reuniões de alguns campi, com a justificativa da necessidade de conclusão dessas turmas e uma possível melhor condição de conectividade e mais experiência das mesmas. Espero que esse retorno seja bem sucedido, contudo os dados devem ser cuidadosamente analisados e deve-se entender que aplicar uma metodologia com últimas turmas, não implica que os resultados, por melhor que sejam, possam ser alcançados por todas as turmas, sobretudo as iniciais.”, afirmou o diretor de comunicação do Sintietfal.

Como fruto desse debate, foi aprovada, por maioria, a elaboração de uma carta contrária à implementação do ensino remoto no Ifal. Uma audiência – se possível, audiência pública – será agendada com o reitor para a entrega simbólica do documento à gestão do Ifal.

“Aprovamos que somos contra o ensino remoto, por seu caráter excludente, incapaz de atender a diversas especificidades do corpo discente e incompatível com as condições laborais concretas dos servidores, notadamente dos docentes”, disse Elaine Lima, vice-presidenta do Sintietfal.

Entre as alternativas pontuadas, entrou na discussão a suspensão do calendário acadêmico de todo o ano de 2020 (a exemplo do IFC); a consideração dos meses restantes do ano como semestre suplementar – de caráter facultativo para os estudantes – (a exemplo da UFPE); ou a adoção da modalidade chamada ensino híbrido. “Todas essas possibilidades, ainda em aberto, demandam um processo de avaliação constante das projeções de evolução da pandemia nos próximos meses, bem como requerem um maior amadurecimento dos temas no âmbito do Ifal, o que passa pela ampliação e aprofundamento do debate público com a comunidade acadêmica”, completou a vice-presidenta do Sintietfal.

A comissão responsável pela elaboração do documento que será apresentado em audiência com a reitoria é composta por Flávio Veiga, Claudemir Martins, Gabriel Magalhães, Levy Brandão, Francine Lopes e Gisele Oliveira.

Maternagem

O ponto sobre a situação das servidoras mães diante do trabalho remoto não constou na convocação da assembleia, mas foi incluído na pauta por unanimidade. Em nome das professoras do câmpus Penedo, a professora Gisele Oliveira apresentou a situação de sobrecarga de trabalho das servidoras que estão em isolamento social – muitas vezes, sozinhas com seus filhos pequenos – e leu uma carta aberta sobre a maternagem e o trabalho remoto.

“Enquanto Instituição de educação, precisamos romper com a naturalização das desigualdades e que as tarefas de cuidado não são de cunho privado, mas de interesse geral, de toda a sociedade e precisa ser visibilizada e amplamente debatida. Essa é uma luta de todas e todos que acreditam numa sociedade mais justa e igual”, afirma em trecho da carta.

Diversas mulheres e homens se posicionaram sobre o tema. No chat, a professora Kleyse Galdino, escreveu: “A obrigação do cuidar é uma questão de gênero no Brasil. A mulher é levada a essa obrigação de uma maneira que até naturalizamos que a responsabilidade é só das mulheres. Inclusive a função de professora por muito tempo foi dada à mulher porque associava-se o ensino à maternidade. À medida que a exploração do trabalho sobre o professor aumentou, a ‘pretensa’ igualdade de gênero trouxe uma maior demanda para a mulher/professora/ mãe”, disse a servidora, que também é uma das autoras da carta aberta.

O servidor Amaro Leite defendeu que a luta contra a sobrecarga das servidoras é uma pauta de toda a categoria. “A pauta não é só das mulheres, mas de todos os homens também. Por mais que a gente divida e compartilhe o trabalho do cuidado com os filhos, sabemos que o peso maior sempre recai sobre as mulheres”, disse.

Entre as reivindicações apresentadas pelas servidoras, estão a possibilidade de negociação com outros docentes sobre remanejamento de turmas para diminuição de ementas trabalhadas; liberdade em usar aulas sincrônicas ou vídeo aulas com qualidade e compatibilidade do conteúdo; e a liberdade de método.

A Assembleia Geral decidiu subscrever integralmente a carta Pela Valorização do Cuidar, elaborada pelas servidoras do campus Penedo. Além disso, ficou definida a criação de campanha de conscientização para situações e frases machistas das quais as mulheres são alvo no dia a dia, o incentivo para a realização de denúncias, no site do Sintietfal, sobre assédio moral durante a pandemia e a realização de uma live sobre esse tema. Por fim, a próxima Assembleia Geral vai debater a possibilidade de criação de um grupo de trabalho permanente do sindicato (diretoria e base) sobre gênero

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