Fundação Palmares: Sérgio Camargo ignora o Dia Consciência Negra e quer revisar história dos/as negros/as no Brasil

Portaria publicada “normatiza, legitima e moraliza” lista de personalidades negras da Fundação

Distante de homenagear o Dia da Consciência Negra, no dia 20 de novembro, a preocupação da Fundação Cultural Palmares, presidida pelo “negro de direita” e “antivitimista” Sérgio Camargo, é revisar as diretrizes da Lista de Personalidades Negras.

A grande proposta do mês da consciência negra da gestão Bolsonaro foi a edição da portaria nº 189, de 10 de novembro de 2020, que institui novas diretrizes para a inclusão e permanência de nomes na Lista de Personalidades Negras da FCP.

Sem mencionar sobre comemorações ou homenagens ao Dia da Consciência Negra, o representante da Fundação Palmares usa suas redes sociais para propagar um apagamento e uma revisão da história. “O Brasil finalmente poderá ter orgulho da galeria da Fundação Palmares”, afirmou em twitter no dia 11 de novembro.

As novas regras, que passam a valer a partir do dia 1º de dezembro, excluem personalidades vivas e retiram nomes como Gilberto Gil, Elza Soares, Zezé Motta, Martinho da Vila, Milton Nascimento e Sandra de Sá e do senador Paulo Paim (PT). O argumento apresentado em nota técnica é que, em vida, os/as homenageados/as podem mudar, já que suas “biografias encontram-se em construção” e “podem ter se passado por heróis sem sê-lo”.

Segundo informações obtidas pelo site Metrópolis, a avaliação de técnicos de carreira é a de que os alvos são pessoas críticas ao atual governo.

Além de excluir negros e negras vivos/as, pois sua maioria são antibolsonaristas, Sérgio Camargo também excluiu personalidades mortas contrárias a sua ideologia e substituiu por militares e policiais. Em suas palavras, a portaria “normatiza, legitima e moraliza” as homenagens da Palmares.

“A partir desta quarta-feira, a Palmares anunciará a inclusão de militares e policiais negros na lista, que se destacaram por seus feitos de natureza heróico/patriótica. Madame Satã e Marighella nunca serão nossos heróis. Somos pró-policia, lei e ordem”, afirmou Sérgio Camargo nesta terça-feira, 17 de novembro.

Para Ana Lady, diretora do Sintietfal e membra do NEABI AYÓ (Campus MD),  essa atitude demonstra os ideais políticos adotados pelo atual governo. “Racismo, preconceito, negação da história brasileira, falta de conhecimento sobre quem e como se construiu a nossa nação, total despreparo e desqualificação para ocupar um cargo tão importante. Se hoje temos o povo negro tendo acesso às universidades, aos concursos públicos, aos estágios, às vagas de emprego, se temos personalidades negras nacionais, reconhecidas internacionalmente, na música, nas artes, publicando livros e best-sellers e, até mesmo, a recém conquista nas diversas prefeituras pelo Brasil, é devido à luta de nossos ancestrais que abriram caminho para estarmos aqui. Dos negros e das negras que batalharam por justiça, por espaço, por igualdade e por direitos que foram negados, inclusive o direito de existir, por tanto tempo”, afirmou a diretora.

A dirigente sindical repudiou a portaria e demonstrou certeza na resistência do povo negro. “Não será a tentativa ridícula de apagamento da memória da cultura afro-brasileira, construída ao longo desses três últimos séculos, por um desajustado, que não reverenciaremos e/ou lembraremos de quem fez por merecer e fez história. Palmares está mais viva do que nunca. E vamos reerguê-la”, completou.

Um Comentário em “Fundação Palmares: Sérgio Camargo ignora o Dia Consciência Negra e quer revisar história dos/as negros/as no Brasil

Edirceu José Rodrigues
19 de novembro de 2020 em 23:08

*CARTA A MILTON NASCIMENTO*
Braz Chediak
Meu querido Bituca,
acabo de ver, pela televisão, que você foi excluído das “personalidades negras importantes” pelo diretor da Fundação Palmares.
Isto me fez pensar: afinal, o que é que Milton fez para “ter sido” importante para tal Fundação? Um entendedor de música ou entendedor de Ser Humano, responderia:
– Milton Nascimento foi um dos maiores cantores da língua portuguesa de todos os tempos, um compositor extraordinário, um Ser Humano invejável.
“Milton levou o nome do Brasil para todos os países do mundo, combatendo o bom combate contra as ditaduras, as desigualdades raciais e sociais, a fome, a miséria, a traição, a ignorância, a mentira.
“Foi um Paladino da paz, da amizade, do abraço fraterno, do ““amai a seu próximo como a ti mesmo””.
“Milton Nascimento deu sentido e beleza às nossas vidas. Milton foi e é um brasileiro que nos faz orgulhar de sermos brasileiros”.
Mas, como você sabe, meu querido poeta/cantor, o barco às vezes balança, a noite às vezes cobre o azul do céu, do mar, da terra.
E ficamos tristes.
Tristes porque você foi excluído de um lugar que é seu (por alguém que é nada, meu querido Bituca), como também o foram Abdias Nascimento, Elza Soares, Tim Maia, Martinho da Vila, etc., etc., e até mesmo Zumbi dos Palmares.
Mas um anjo do bem chega até mim e, com sua voz Trespontana, me sussurra: “o presidente da Fundação, Sérgio Camargo, só será lembrado por sua ignorância, recalque, despeito, inveja. E Bituca será lembrado por seu amor, pela sua beleza, por sua voz, enquanto alguém cantar na face da terra. Enquanto nos ajoelharmos e louvarmos a “Voz de Deus”, porque, como disse Elis, “Se Deus cantasse, seria com a voz de Milton Nascimento!”.
E Deus canta, meu querido Bituca, Canta em todas as coisas livres: no vento, nas folhas das árvores e na relva, no murmurar dos riachos, no coração dos amigos… e no grande lamento brasileiro pelo momento de dor pelo qual passamos.
Milton você foi “excluído” das personalidades da Fundação Zumbi dos Palmares, mas não foi excluído de nós e viverá enquanto vivermos.
E depois que deixarmos a vida sua voz continuará ecoando, em eco, como os cascos dos cavalos com suas rubras ferraduras, como a voz nas estradas, como um amigo guardado do lado esquerdo do peito de todos os seres humanos. Como a música da infância no Cine Ouro Verde.
Como o Grande Bituca. O Grande Milton. O Grande Brasil.
E somos gratos a você por isto.
Com carinho,
Braz Chediak

*para Wagner Tiso, meu amigo, e Yassír Chediak, meu filho, pela música.

*compartilhem

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