Saúde Mental também é pauta sindical: enfrentamento das violências e assédio moral no trabalho

As discussões sobre saúde mental no trabalho tem ocupado um lugar cada vez mais central nos debates sobre as condições de vida e trabalho da classe trabalhadora. No contexto da educação pública federal, essa realidade se expressa de forma particular, marcada pela intensificação das atividades, pela ampliação das responsabilidades institucionais e pelos impactos produzidos por sucessivos processos de precarização do serviço público.

No Instituto Federal de Alagoas (Ifal), docentes e técnicos-administrativos desenvolvem suas atividades em um cenário que exige a articulação permanente entre ensino, pesquisa, extensão e gestão. Além das atribuições diretamente relacionadas à formação dos estudantes, as trabalhadoras e os trabalhadores assumem funções administrativas, participam de comissões, elaboram projetos, produzem relatórios, atendem às exigências dos sistemas de controle e acompanham as múltiplas demandas da vida institucional.

Esse conjunto de responsabilidades tem se ampliado ao longo dos anos, muitas vezes sem a correspondente ampliação das equipes, da infraestrutura e dos recursos necessários para sua realização. Como consequência, situações de sobrecarga de trabalho, pressão por resultados, combate à evasão, excesso de demandas burocráticas e intensificação do ritmo de trabalho tornam-se parte do cotidiano de muitas servidoras e de muitos servidores.

Os impactos desse processo não se restringem ao ambiente profissional. Diversos estudos no campo da Saúde do Trabalhador demonstram que a organização do trabalho, as formas de gestão e as relações de poder presentes nas instituições podem produzir sofrimento psíquico, esgotamento emocional e diferentes formas de adoecimento.

Entretanto, esse sofrimento não é vivido da mesma forma por todas as pessoas. As desigualdades de gênero constituem um importante marcador das experiências de trabalho e influenciam diretamente quem está mais exposto a determinadas formas de violência, invisibilização e sobrecarga. Mulheres, especialmente quando atravessadas por outros marcadores sociais como raça, orientação sexual, deficiência e posição hierárquica, frequentemente enfrentam maiores dificuldades para exercer suas funções em ambientes marcados por relações desiguais de poder.

A divisão de gênero do trabalho que a sustenta, manifesta-se de forma  estrutural e cotidiana: a desvalorização das competências, a naturalização da dupla jornada, a responsabilização pelo cuidado, as interrupções constantes da fala, a deslegitimação da autoridade técnica, a distribuição desigual de tarefas administrativas e de cuidado institucional, bem como práticas misóginas explícitas ou sutis, produzem um contexto de desgaste contínuo. Essas experiências, muitas vezes banalizadas no cotidiano, afetam a autoestima, comprometem a permanência em espaços de decisão e repercutem diretamente na saúde mental das trabalhadoras.

Além das condições materiais de trabalho, as relações institucionais exercem influência decisiva sobre os processos de adoecimento. Situações de assédio moral, assédio sexual, discriminação, misoginia, racismo, LGBTfobia, capacitismo, autoritarismo e abuso de poder não podem ser compreendidas como eventos isolados ou conflitos interpessoais ocasionais. Elas expressam relações de poder que atravessam a organização do trabalho, produzem sofrimento, restringem a participação e comprometem a dignidade, a saúde e os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores.

No contexto das instituições públicas de ensino, o uso abusivo do poder pode se manifestar por meio de perseguições, isolamento profissional, constrangimentos públicos, desqualificação sistemática do trabalho realizado, distribuição desigual de oportunidades e outras práticas que fragilizam os vínculos coletivos e dificultam a construção de ambientes democráticos e saudáveis. Quando essas práticas se articulam às desigualdades de gênero, seus efeitos tendem a ser ainda mais intensos, atingindo de maneira desproporcional as mulheres.

Para o Sintietfal, o cuidado com a saúde mental das trabalhadoras e dos trabalhadores do Ifal constitui uma pauta sindical, política e de defesa dos direitos humanos. Defender condições dignas de trabalho significa também enfrentar as diversas formas de violência institucional, combater as desigualdades de gênero e outras discriminações, fortalecer espaços democráticos de participação e construir mecanismos efetivos de acolhimento, proteção e responsabilização.

Foi a partir dessa compreensão que o sindicato criou o Serviço de Psicologia do Sintietfal, uma iniciativa voltada para o acolhimento, a escuta qualificada e a orientação de servidores e servidoras que enfrentam situações de assédio moral, assédio sexual e violência no trabalho.

A iniciativa integra um conjunto mais amplo de ações desenvolvidas pelo Sintietfal para o enfrentamento do assédio e para a promoção da saúde mental no Ifal, fortalecendo a compreensão de que a defesa da educação pública também passa pelo cuidado com aqueles e aquelas que a constroem diariamente.

O serviço surge como uma estratégia de cuidado e fortalecimento da categoria, reconhecendo que o sofrimento decorrente das relações e condições de trabalho não deve ser enfrentado de forma individualizada ou silenciosa. Ao oferecer um espaço seguro de escuta e acolhimento, o sindicato reafirma seu compromisso histórico com a defesa dos direitos da categoria e com o enfrentamento das desigualdades que atravessam o mundo do trabalho.

A partir de nossa experiência neste acolhimento, temos percebido que as demandas que chegam ao serviço revelam a intensidade do sofrimento produzido pelas relações e condições de trabalho, especialmente entre as mulheres. São frequentes os relatos de perseguição, opressão, desqualificação e deslegitimação do trabalho realizado, assim como experiências de isolamento, constrangimento e culpabilização diante do próprio sofrimento e adoecimento. Muitas trabalhadoras chegam ao serviço não apenas fragilizadas pelas situações que vivenciam, mas também carregando no corpo marcas desta lógica de que são responsáveis pelo próprio adoecimento, como se o sofrimento fosse resultado de uma suposta incapacidade individual de lidar com as exigências institucionais. Nosso trabalho é reposicionar o lugar do sofrimento não como causa do adoecimento, mas como efeito da cultura organizacional.

Por fim, temos compreendido que o sofrimento não pode ser dissociado da forma como o trabalho é organizado e das relações de poder que se estabelecem no cotidiano institucional. Nesse sentido, consideramos que, atualmente, essa lógica predominante na cultura organizacional do IFAL constitui um importante fator de risco para a saúde dos trabalhadores e das trabalhadoras, sobretudo quando naturaliza a sobrecarga, individualiza o sofrimento, silencia situações de violência e desigualdade e fragiliza aqueles e aquelas que buscam denunciar ou enfrentar essas práticas.

Para conhecer mais sobre o serviço, acesse: https://www.sintietfal.org.br/psicologia/ 

Renata Guerda – CRP 15/2696

Cássia Florentino – CRP 15/5235

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